As populações de peixes despencam em outros lugares, mas, o estado mexicano, as comunidades limitam a pesca para manter estoques fartos e preservar um modo de vida.

Falta meia hora para o sol nascer, e o mar é uma tinta preta lambendo a areia. Uns dez pescadores batem papo na sala do capitão do porto em Punta Abreojos, riem e comentam sobre a festa que haverá essa noite.

A animação é grande nessa localidade costeira do estado mexicano de Baja California, pois hoje é um dia do ano muito esperado: o início da temporada do abalone. Na verdade, a temporada começou faz quatro meses, mas Punta Abreojos segue uma singular proibição autoimposta. Em vez de começar a pescar em janeiro, conforme a permissão do governo, a comunidade aguarda até abril, quando esses moluscos já ganharam peso.

Entro no Pacífico com três pescadores cinquentões que atuam juntos desde a adolescência. “Cavalo” opera o motor, “Toupeira” iça os sacos de abalone e “Peixe”, naturalmente, mergulha. (Eles se chamam Porfirio Zúñiga, Eduardo Liera e Luis Arce, mas todo mundo os trata pelo apelido.)

Peixe é o mais esfuziante: acaba de voltar de Pebble Beach, Califórnia, onde surfou e jogou golfe. Os amigos zoam quando ele veste uma roupa de mergulho novinha. O sol está alto. Antes de o barco chegar ao seu local de pesca, Cavalo para perto de um recife abarrotado de abalones. “Estes são abalones ‘verdes’. Só vão estar prontos daqui a um mês, no mínimo”, explica.

Algumas milhas depois, Peixe pula na água. Em duas horas, ele atinge o limite de pesca e sobe, sorridente, com um saco lotado de abalones sadios. Na maioria das cidades pesqueiras do México – aliás, em boa parte do resto do mundo em desenvolvimento –, homens como ele obtêm um butim exíguo em águas exauridas, e mal conseguem se sustentar. O que explica o otimismo desses homens com a temporada que começa? Como eles podem se dar ao luxo de um novo traje de mergulho e férias em resorts de golfe?

A cooperativa de pesca local surgiu em 1948 e, durante anos, funcionou como as outras: extraindo do mar tudo o que pudesse. Nos anos 1970, porém, depois de temporadas decepcionantes, os pescadores decidiram tentar algo novo: um manejo de longo prazo das lagostas (e, mais tarde, dos abalones), em vez de buscar lucros imediatos.

Hoje, Abreojos e outras comunidades de Baja que seguem a mesma estratégia apanham mais de 90% dos abalones no México. As casas têm pintura nova. A cidade possui um time de beisebol e uma equipe de surfe. As lagostas e os abalones são enlatados em uma fábrica nova e vendidos diretamente à Ásia para maximizar os lucros. As águas são vigiadas por radar, barcos e aviões. Os pescadores aposentados recebem pensão.

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